O mercado de infraestrutura brasileiro vive um paradoxo conhecido por quem está na linha de frente: não faltam necessidades, não faltam projetos e tampouco falta capital interessado em ativos reais. Ainda assim, apenas uma parcela pequena dos empreendimentos consegue avançar na captação de dívida estruturada. O motivo raramente está no potencial do ativo, mas na sua bancabilidade.
A dívida de longo prazo exige um conjunto de elementos que vai muito além da viabilidade econômica. Envolve contratos capazes de suportar ciclos longos, alocação clara de riscos entre as partes, garantias que dialogam com o perfil dos credores e uma modelagem financeira que reflita o comportamento real do ativo, e não apenas sua simulação teórica. Esse conjunto forma o que bancos, fundos, seguradoras e organismos multilaterais chamam de “estrutura de bancabilidade”.
Nos últimos anos, o rigor desse processo aumentou. Investidores estão mais atentos à robustez jurídica dos contratos, ao alinhamento regulatório, ao histórico das contrapartes, à qualidade e profundidade dos estudos técnicos, aos critérios de ESG e às premissas que sustentam a geração de caixa no longo prazo. Projetos que não apresentam coerência entre engenharia, jurídico, operação e finanças dificilmente passam da análise preliminar, mesmo quando a oportunidade parece atrativa.
O jogo deixou de ser apenas sobre captar.
Agora é sobre cumprir um padrão técnico de elegibilidade: provar que o projeto é capaz de absorver dívida, remunerá-la com segurança e superar cenários adversos ao longo de décadas. Em infraestrutura, é isso que separa intenção de execução.
Por isso, a “batalha pela dívida” não acontece na negociação final. Ela começa muito antes: nos primeiros desenhos da estrutura contratual, no modo como riscos são distribuídos e na capacidade do projeto de demonstrar consistência técnica desde o início. A captação só chega para quem atravessa essa barreira invisível.
Por que tantos projetos não são considerados bancáveis?
Grande parte dos projetos de infraestrutura acabam muito antes de chegar à mesa dos credores. Não é por falta de relevância, demanda ou potencial econômico. O que inviabiliza essas operações é algo menos visível: a incapacidade de demonstrar bancabilidade.
Projetos chegam ao mercado com estudos incompletos, contratos desequilibrados e sem validação jurídica, distribuição incorreta de riscos e premissas financeiras que não conversam com a realidade setorial. Muitas vezes, a engenharia aponta para um caminho, o jurídico para outro e a modelagem financeira tenta conciliar elementos que nunca foram pensados de forma integrada. Essa desconexão é fatal. Credores sabem que, quando a estrutura não fecha no papel, dificilmente fechará na operação.
Outro problema é a alocação inadequada de riscos. Infraestrutura exige clareza sobre quem assume o quê: construção, operação, demanda, variação de custos, contingências e cenários adversos. Quando o projeto empurra riscos indevidos para financiadores ou não demonstra mecanismos robustos de mitigação, perde elegibilidade na largada. Em geral, bancos, fundos e seguradoras não rejeitam o ativo: rejeitam o desequilíbrio estrutural.
Há ainda a questão da profundidade documental. Não basta ter estudos; é preciso que eles sejam consistentes, auditáveis e coerentes entre si. Divergências entre pareceres técnicos, lacunas nos contratos, falta de padronização, utilização de fontes duvidosas, inexistência de testes de estresse ou ausência de análises de sensibilidade são sinais de alerta que afastam qualquer potencial credor, mesmo antes de se discutir pricing.
Por fim, muitos projetos pecam pela narrativa financeira insuficiente. Credores não precisam apenas acreditar no ativo; precisam entender como ele sobreviverá em cenários desfavoráveis, como honrará a dívida e como suas garantias respondem ao longo do ciclo de vida. Quando a narrativa não demonstra maturidade ou não antecipa dúvidas técnicas, o projeto perde credibilidade, independentemente do setor ou da atratividade teórica.
Em infraestrutura, não é a falta de capital que mata projetos. É a falta de bancabilidade.
Como os credores avaliam, de fato, a bancabilidade de um projeto
Quando um projeto chega para análise, o credor não começa pela modelagem financeira – começa pela estrutura. O primeiro filtro é simples e implacável: o projeto é bancável? Ou seja, ele apresenta robustez contratual, alocação de riscos adequada e capacidade comprovada de suportar dívida de longo prazo?
Credores experientes avaliam isso muito rapidamente, antes de avançar para semanas de diligências. O olhar técnico se concentra em três eixos fundamentais:
1. Coerência entre engenharia, jurídico e finanças
O credor observa se a documentação técnica, os contratos e a modelagem financeira contam a mesma história. Divergências entre premissas, inconsistências entre cronogramas, ou contratos que não refletem o fluxo operacional esperado, são sinais de que o projeto não foi integrado e, portanto, não é financiável.
Não é a planilha que reprova o projeto. É a falta de alinhamento entre as disciplinas.
2. Alocação e mitigação de riscos
Uma das primeiras leituras feitas por comitês de crédito é a matriz de risco implícita na operação. Eles verificam:
- quem assume risco de construção;
- quem absorve risco de demanda;
- como variações de custo são tratadas;
- quais garantias protegem a dívida; e
- se há mecanismos de renegociação claros.
Quando a estrutura tenta transferir riscos indevidos ao financiador, a análise se encerra rapidamente. Credores financiam riscos conhecidos, nunca riscos mal endereçados.
3. Capacidade real de geração e proteção de caixa
Mais do que olhar o fluxo de caixa projetado, credores avaliam como ele é sustentado:
- contratos de longo prazo;
- estabilidade regulatória;
- qualidade da contraparte;
- mecanismos de reajuste;
- proteções em caso de queda de receita; e
- aderência das premissas ao comportamento histórico do setor.
Eles querem saber se o caixa resiste ao ciclo completo do ativo e não apenas se “fecha na TIR”.
Além disso, credores analisam rapidamente a qualidade do emissor: governança, capacidade de execução, histórico de projetos semelhantes e a prontidão técnica da equipe. Um projeto tecnicamente bom, apresentado por um emissor desorganizado, perde força imediatamente.
No fim, credores não buscam perfeição, buscam consistência estrutural. Se o projeto demonstra coerência, equilíbrio e previsibilidade, entra no funil. Se não, nem chega à fase de negociação.
O que torna um projeto verdadeiramente bancável
Tornar um projeto de infraestrutura elegível para dívida estruturada não é apenas uma questão de demonstrar retorno. É uma combinação de arquitetura contratual, lógica financeira, mitigação de riscos e governança integradas desde o início. Bancabilidade é o resultado dessa soma.
O primeiro passo é construir uma estrutura contratual que suporte o ciclo de vida do ativo. Isso significa contratos alinhados entre si, com obrigações claras, matrizes de risco proporcionais e mecanismos de proteção para cenários adversos. Projetos bancáveis não têm contratos que “pressupõem” a operação ideal; eles testam a operação real e se preparam para ela.
Em seguida, vem a alocação correta dos riscos. Financiadores não absorvem riscos de construção sem mitigação, riscos de demanda sem contrato firme ou riscos de variação de custos sem mecanismos de equilíbrio. Estruturas bancáveis definem explicitamente quem assume cada risco e quais instrumentos garantem a continuidade do serviço e o pagamento da dívida ao longo de décadas.
A modelagem financeira precisa ser mais do que detalhada: precisa ser verificável, rastreável e coerente com o setor. Premissas calibradas com dados reais, análises de sensibilidade que reflitam a volatilidade do mercado e testes de estresse que mostrem a resiliência da operação são indispensáveis. Credores não buscam promessas; buscam previsibilidade técnica.
Outro elemento decisivo é a qualidade das garantias. Contas vinculadas, step-in rights, reforços de covenants operacionais, seguros estruturados e mecanismos de reforço de liquidez fazem parte do arcabouço esperado. A garantia não substitui uma estrutura ruim, mas é o que protege o credor quando algo foge do previsto.
Por fim, nenhum projeto é bancável se não houver governança e capacidade de execução. Credores financiam tanto o projeto quanto o emissor. Eles precisam enxergar processos, controles, gestão documental e uma equipe capaz de conduzir o ativo ao longo de sua vida útil.
Projetos bem estruturados não “buscam” dívida. Eles se qualificam para ela.
Bancabilidade construída de forma integrada: da engenharia financeira ao acesso à dívida
Na UNA, tratamos a bancabilidade como um processo integrado e não como um conjunto isolado de documentos. Nossa atuação parte do princípio de que um projeto só chega à dívida estruturada quando engenharia, contratos, riscos, governança e finanças trabalham em coerência absoluta. É assim que transformamos intenção de captação em elegibilidade real.
Nosso trabalho começa pela estruturação da lógica do projeto: entender seus fluxos, seu setor, suas contrapartes, suas obrigações e o comportamento do ativo ao longo do ciclo. A partir disso, apoiamos a construção de contratos consistentes, alocação adequada de riscos, mecanismos de mitigação, premissas setoriais calibradas e modelagens compatíveis com padrões de financiabilidade.
Combinamos isso à inteligência de mercado, analisando como credores – bancos, fundos, seguradoras e players internacionais – têm financiado projetos similares, quais fatores têm sido determinantes em decisões de crédito e quais requisitos mínimos cada perfil exige para avançar. Isso reduz incertezas e orienta o projeto a um padrão técnico reconhecido pelo mercado.
Nossa plataforma digital organiza documentos, análises, versões e trilhas de auditoria, garantindo consistência e transparência ao longo da estruturação. Isso fortalece a confiabilidade da operação e acelera o processo de avaliação pelos credores.
A UNA não apenas modela: estruturar é o nosso núcleo. Preparamos projetos para entrar no funil da dívida estruturada, removendo assimetrias, fortalecendo premissas e alinhando narrativas técnicas às expectativas do mercado.
No final, não ajudamos apenas a captar. Ajudamos projetos a se tornarem bancáveis e, por isso, realizáveis.
Quer saber como podemos apoiar o sucesso do seu projeto? Fale com a nossa equipe.