Com alto investimento por quilômetro e retorno pressionado, a nova concessão da BR-101/ES/BA lança luz sobre os riscos e desafios das relicitações no setor de rodovias.

A BR-101/ES/BA é uma rodovia federal de 478,7 km que conecta o Espírito Santo à Bahia, sendo peça-chave na logística nacional. Embora sua importância estratégica seja inegável, a concessão firmada em 2013 por 15 anos com a iniciativa privada, pelo Grupo EcoRodovias, se mostrou insustentável ao longo do tempo. Acúmulo de sanções, falhas de manutenção, descumprimento de obras e deficiências operacionais geraram uma crescente insatisfação por parte dos usuários e levaram a concessionária a solicitar formalmente a devolução amigável do ativo em julho de 2022.

A relicitação foi qualificada no âmbito do Programa de Parcerias de Investimentos (PPI) por meio do Decreto nº 11.539, em maio de 2023, iniciando o processo que agora se encaminha para o leilão, marcado para o dia 26 de junho de 2025, na B3, em São Paulo.

Uma Concessão Marcada por Inadimplência Contratual

O histórico da concessão da ECO101 é carregado de passivos resultantes do descumprimento generalizado de obrigações contratuais. De acordo com documentos públicos e análises do Tribunal de Contas da União TCU, houve:

Esse cenário consolidou a percepção de que a modelagem anterior não se sustentava financeiramente, nem tecnicamente. 

Assim, o pedido de relicitação foi qualificado pelo Decreto nº 11.539 em maio de 2023, iniciando o processo para um novo contrato com o objetivo de corrigir essas distorções.

Um Precedente Importante: o Caso da BR-163/MS

O caso da BR-163/MS, sob responsabilidade da CCR MSVia (Motiva), oferece aprendizados valiosos. Após não cumprir a duplicação prevista no contrato original (apenas 150 km de 845 km foram entregues), a concessionária solicitou devolução amigável em 2019 devido a problemas financeiros.

O processo de repactuação foi aprovado pelo TCU em 2024, com exigência de comprovação de capacidade financeira e técnica. 

Em 2025, a Motiva foi a única licitante no leilão e manteve a concessão, em contrato estendido até 2054, porém com escopo reduzido de duplicação (203 km) e investimentos de R$ 17 bilhões. 

A lição deixada foi clara: O caso MSVia sugere que, mesmo com um processo competitivo, é difícil atrair novos participantes para ativos problemáticos. Isso indica que tais processos podem servir mais para legitimar a continuidade da concessionária incumbente sob novas condições do que para realmente gerar concorrência, o que é uma lição importante para futuros leilões como o da ECO101.

O Novo Processo da ECO101

Diante do cenário, o leilão da BR-101/ES/BA foi oficialmente aberto em 17 de março de 2025. O contrato da concessão, que abrange os 478,7 km da BR-101/ES/BA, terá um prazo de 24 anos, e o critério de julgamento será o menor valor de tarifa de pedágio combinado com a curva de aporte.

O que é a curva de aporte?

A curva de aporte é a contribuição financeira direta que o novo concessionário deverá fazer ao projeto, com três objetivos principais:

Essa estrutura permite licitantes com maior capacidade financeira, liquidez ou apetite por risco para injetar capital inicial podem ter uma vantagem estratégica, mesmo que sua tarifa proposta não seja a mais baixa. Essa abordagem visa assegurar a estabilidade financeira imediata e o rápido início das obras, refletindo uma prioridade do governo em garantir a viabilidade do projeto.

Principais Números da Concessão

Comparação com Outras Concessões

Considerações Finais

O resultado do leilão da ECO101 reforça um padrão que vem se repetindo em relicitações de ativos críticos: a ausência de concorrência efetiva. Com a Ecorodovias como única proponente, propondo uma tarifa básica de pedágio de R$0,05525/km de pista simples, o processo sinaliza as dificuldades de atrair novos operadores para concessões marcadas por passivos operacionais e baixa performance anterior. Ainda que o projeto tenha sido reestruturado com novos critérios e projeções de viabilidade, os riscos percebidos continuam elevados..

Na UNA, acompanhamos de perto os desafios e transformações no setor de infraestrutura rodoviária e a evolução dos modelos de concessão e PPPs no Brasil. Por meio de modelos financeiros sólidos e inteligência estratégica, apoiamos investidores, operadores e agentes públicos na avaliação de riscos e na estruturação de projetos que combinam viabilidade, segurança e impacto positivo para o país.